terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

A Devoção Cristã num Tempo de Mudanças - Franklin Ferreira

A Devoção Cristã num Tempo de Mudanças
Franklin Ferreira
19 de Fevereiro de 2014 - Vida Cristã
Vivemos numa época caracterizada por irracionalidade, relativismo, individualismo, consumismo e violência. O surpreendente é que há uma semelhança muito grande entre o nosso tempo e a época em que o cristianismo surgiu. O que se vê é o ressurgimento de uma cultura pagã, muito parecida com a do tempo em que Jesus Cristo e os apóstolos viveram.

A igreja cristã hoje é desprezada pelo mundo, tendo de lutar por sua sobrevivência ao lado de muitos outros movimentos religiosos. Essas mudanças, que estão ocorrendo na sociedade, têm tido poderosa influência sobre nossa doutrina, nossa pregação e nossa forma de ser igreja.

Concluindo o livro, este capítulo é dividido em duas partes. Na primeira, examinaremos brevemente o atual cenário e seu impacto nas formas de pensar e se posicionar da igreja evangélica em nosso país; na segunda parte, examinaremos como os personagens que foram considerados nesta obra podem ajudar-nos a manter a fé evangélica de forma fiel à herança cristã.

“Admirável mundo novo”

É comum percebermos no meio evangélico a influência deste novo paganismo, que leva muitas igrejas e denominações a adotar ordens de culto e liturgias em que o sentimento de reverência cede lugar à descontração, e o bem-estar do fiel se torna mais importante que a sua humilhação e dedicação a Deus. O Senhor Deus é transformado numa espécie de força, disponível sempre que necessário, mas que não incomoda, pois não exige nenhum tipo de mudança de comportamento ou santidade.

Nesse contexto, em que a pregação da Palavra de Deus muitas vezes é desprezada, a música produz um elevado clima emocional, onde é proposta uma teologia que se apoia vagamente no Evangelho, mas que, na verdade, é baseada numa experiência emocional dos crentes, sem um apelo à razão.

A crítica à razão e à instituição, além de promover divisões nas igrejas e uma desconfiança quanto aos ministros cristãos, as tem deixado sem defesa para as novas tendências teológicas. Por isso, os cristãos de hoje não veem dificuldades ou problemas em assumir conceitos e palavras que fazem parte de outros grupos religiosos, inclusive dos que são o oposto ao cristianismo.

Podemos ver essa descaracterização do evangelho naqueles que acreditam em simpatias, em benzedeiras, em copos de água em cima do rádio ou da televisão, imitando o catolicismo popular, resgatando até mesmo superstições da Idade Média, como a comercialização de óleo ungido, da água do rio Jordão, etc. Algumas pessoas viajam quilômetros apenas para orar com alguém que tem supostos dons especiais, ou uma oração mais poderosa. Infelizmente, em algumas igrejas, podemos perceber semelhanças com os cultos de matriz africana, cujo discurso se prende à obsessão por demônios, pela qual passa a igreja evangélica no Brasil. A vida cristã passa a ser movida por eventos supérfluos como os shows gospel e a “Marcha para Jesus”. E, como se não bastasse, a teologia da prosperidade, com seu vocabulário sem significado, tem substituído a simplicidade bíblica, centrada em Cristo Jesus.

O mais trágico é que há igrejas ensinando que, para uma pessoa ser salva, ela precisa cumprir uma elaborada lista de itens, da qual constam: receber o Senhor Jesus como único salvador, participar das “reuniões de libertação” para se ver livre do Diabo, buscar o batismo com o Espírito Santo, andar em santidade, ler a Bíblia todos os dias, evitar más companhias, ser batizado, frequentar as reuniões de membros da igreja, ser fiel nos dízimos e nas ofertas, orar sem cessar e vigiar.

E, mais trágico ainda, mesmo cumprindo toda esta lista, no entender dessas lideranças eclesiásticas, um cristão pode vir a perder a salvação. Entretanto, as Escrituras claramente nos ensinam que homens e mulheres pecadores são declarados justos apenas pela fé, apenas em Cristo; parece que os dirigentes desses movimentos religiosos nunca leram as epístolas de Paulo aos Romanos e aos Gálatas, assim como a epístola aos Hebreus.

Como resultado, o que podemos constatar é que os cristãos muitas vezes são pobres em cultivar amizades profundas e verdadeiras, fazendo com que a comunhão entre os irmãos seja fraca ou inexistente. É por isso que poderíamos sugerir que a igreja tem sido influenciada pelo contexto cultural em que vivemos, preso às emoções e individualidades.

Por outro lado, no começo do século xix, como fruto do Iluminismo, surgiu na Europa um novo movimento teológico, chamado de liberalismo teológico, que tem tido forte impacto sobre os seminários teológicos no Brasil, onde são formados os futuros pastores. O liberalismo teológico se tornou uma espécie de dossel sobre o qual se abrigam teólogos de várias tendências, muitas vezes amorfas, mas que compartilham dos mesmos pressupostos básicos, racionalistas, anti-sobrenaturalistas – por não crerem numa revelação sobrenatural ou em qualquer tipo de milagre e, no fim, ateístas.

Esses teólogos compartilham o desprezo pelos enunciados cristãos mais básicos, as doutrinas da Criação, da inspiração das Escrituras, do nascimento virginal de Cristo, de sua morte salvadora e ressurreição e do seu retorno final, triunfante. Essas doutrinas passaram a ser severamente criticadas ou claramente negadas por eles, numa tentativa de reinterpretar o cristianismo histórico.

Tal movimento chegou ao Brasil, trazido por missionários estrangeiros, em meados de 1960, e as principais denominações históricas brasileiras – presbiterianos, batistas, metodistas e luteranos – acabaram sofrendo forte influência nessa mudança teológica, ocorrida especialmente nos seminários teológicos, mas com reflexos nas igrejas locais.

Mas, como J. Gresham Machen escreveu no começo do século xx, “liberalismo não é cristianismo”. Os liberais, imitando a velha heresia gnóstica, tentaram reinterpretar o cristianismo, justamente para não assumirem em público a diferença entre essas duas cosmovisões antagônicas.

Por  consequência, teólogos  oriundos  desse  movimento  acabam usando linguagem ambígua, para permanecerem ligados às igrejas e seminários das principais denominações no país.

Augustus Nicodemus Lopes acertadamente afirma:

O liberalismo teológico nasceu, alimentou-se e viveu como um parasita, usando o corpo, as energias, os recursos e a vida das organizações eclesiásticas fundadas e financiadas por conservadores. Os primeiros liberais eram ministros de denominações conservadoras – embora já minadas pelas ideias do Unitarismo e do Iluminismo –, de onde tiraram seu sustento e onde ganharam respeitabilidade. Mesmo que tenham mudado suas crenças, não largaram o corpo de onde se alimentavam. Pois não teriam para onde ir.

E, por isso mesmo, precisamos ser constantemente lembrados: liberalismo não é cristianismo!

Essas várias tendências são extremamente perigosas, porque o cristianismo, que sempre sofreu ameaças de ser seduzido pela cultura de seu tempo – e por vezes sucumbiu a ela –, mais uma vez está diante do mesmo desafio. A partir desse quadro, podemos perceber com clareza que o resultado de tal capitulação será uma espiritualidade superficial e sem significado, num contexto onde a igreja evangélica está correndo risco de deixar de ser igreja evangélica, comunidade estabelecida sobre a mensagem do evangelho da graça livre de Deus.

Precisamos lembrar que as antigas confissões de fé, seguindo os ensinamentos das Escrituras, afirmavam que a pureza de uma igreja se mede pela fidelidade com a qual o Evangelho é pregado – o que inclui as doutrinas centrais do cristianismo – e as ordenanças celebradas – o que aponta para a teologia prática das igrejas –, e não pela quantidade de membros agregados.

Uma direção para a igreja

As personagens consideradas neste livro podem ajudar-nos a retomar o rumo, na medida em que descobrimos através de seus exemplos, o que fazer para manter a igreja fiel ao evangelho. Podemos resumir essa ajuda em três pontos.

Se desejamos ser uma igreja fiel, precisamos redescobrir as doutri nas centrais da fé cristã, e isso não é uma tarefa fácil. Precisamos estudar todas as doutrinas bíblicas, buscando saber quais são aquelas cujo conhecimento é vital para nossa salvação e quais são aquelas em que podemos ter opiniões diferentes.
A partir do estudo dos nossos biografados, e como ponto de partida para uma renovação evangélica, somos convidados, em nome do testemunho cristão, da clareza e da honestidade, a oferecer com coragem nossa confissão de fé neste tempo. As bases de fé da Comunidade Cristã de Universidades e Faculdades Cristãs (UCCF) são um um resumo fiel das crenças vitais da tradição cristã e evangélica:

Deve-se crer:

Na existência de um só Deus, Pai, Filho e Espírito Santo, um em essência e Trino em pessoa.

Na soberania de Deus na Criação, Revelação, Redenção e Juízo Final. Na inspiração divina, veracidade e integridade da Escritura, tal como revelada originalmente, e sua suprema autoridade em matéria de fé e conduta.

Na pecaminosidade universal e culpabilidade de todos os homens, desde a queda de Adão, colocando-os sob a ira e a condenação de Deus. No Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus encarnado, plenamente Deus; ele nasceu da virgem; foi plenamente homem, mas sem pecado; ele morreu na cruz, e ressuscitou corporalmente dentre os mortos, e agora reina sobre a terra e o céu.

Na redenção da culpa, pena, domínio e corrupção do pecado, somente por meio da morte expiatória do Senhor Jesus Cristo, nosso representante e substituto, o único mediador entre os pecadores e Deus.

Em que aqueles que crêem em Cristo são perdoados de todos os seus pecados e aceitos por Deus somente por causa da justiça de Cristo imputada a eles; esta justificação é um ato da misericórdia imerecida de Deus, recebida apenas pela confiança em Cristo e não por suas próprias obras.

Em que somente o Espírito Santo torna a obra de Cristo eficaz para os pecadores, levando-os a se voltarem de seus pecados para Deus e a confiar em Jesus Cristo.

Em que somente o Espírito Santo habita em todos aqueles que ele regenerou. Ele os torna cada vez mais semelhantes a Cristo em caráter e comportamento e lhes dá poder para o seu testemunho no mundo.

Na única Igreja, Santa e Universal, que é o Corpo de Cristo, à qual todos os cristãos verdadeiros pertencem e que na terra se manifesta nas congregações locais.

Em que somente o Senhor Jesus Cristo voltará pessoalmente, como o juiz de todos, para executar a justa condenação de Deus sobre aqueles que não se arrependeram e receber os remidos na glória eterna.

Um ponto importante que se deve ter em mente é que o que determina uma tradição denominacional ou mesmo a fé da igreja cristã não é a posição de um teólogo em particular, mas as confissões adotadas em concílios ou por segmentos representativos da igreja cristã. Nesse sentido, a fé cristã é definida a partir do Credo dos Apóstolos, do Credo de Niceia e pela Definição de Calcedônia. E a fé evangélica, construída e dependente da primeira, é determinada por documentos como a Confissão de Augs burgo, o Catecismo de Heidelberg, a Confissão Belga, a Confissão de Fé de Westminster e a Declaração Teológica de Barmen.

O cristianismo histórico é confessional desde o seu princípio: “Portanto, todo aquele que me confessar diante dos homens, também eu o confessarei diante de meu Pai, que está nos céus; mas aquele que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante de meu Pai, que está nos céus” (Mt 10.32-33). Nesse sentido, se desejamos uma renovação da igreja que opere uma mudança na sociedade, precisamos confessar vigorosamente as antigas doutrinas cristãs e evangélicas como afirmadas nos antigos credos e confissões de fé.

Então, a partir desse ponto, devemos pregar e ensinar doutrinariamente na igreja e nos seminários teológicos, enfatizando a centralidade e autoridade das Escrituras, a doutrina da Trindade – que nos ensina que Deus é o Pai, o Filho e o Espírito Santo –, os ofícios e a obra de Cristo – verdadeiro Deus, verdadeiro homem –, o pecado e a culpa, a expiação, a regeneração, a fé e o arrependimento, a justificação, a santificação como obra do Espírito Santo, julgamento, céu e inferno, e, em tudo isso, denunciando o cristianismo hipócrita e nominal.

Nossa atenção precisa voltar-se para o fato de que é a verdadeira doutrina que produz a verdadeira unidade na igreja cristã (Ef 4.1-16).

Agora, uma palavra especial para aqueles que têm servido à igreja na pregação e no ensino. Não basta apenas uma recuperação teológica, pois se nossa teologia não serve para ser pregada, então ela é uma má teologia. Precisamos recuperar uma pregação bíblica, que seja expositiva, doutrinária e prática. Precisamos de pregadores expositivos, que busquem pregar toda a Palavra de Deus, e saibam que somente o Espírito Santo, ligado à Palavra, pode salvar pecadores e edificar a igreja.
A prática da pregação de Martinho Lutero em Wittenberg é uma boa ilustração da centralidade da Palavra de Deus no ministério cristão. Na Igreja do Castelo, no domingo, às 5h, ele pregava nas Epístolas Paulinas; ainda no domingo, às 9h, pregação nos Evangelhos Sinóticos; e no domingo à tarde, pregação baseada nos temas do Catecismo menor; nas segundas e terças, pregação nos temas do Catecismo menor; na quarta, pregação no Evangelho de Mateus; na quinta e na sexta, pregação nas Epístolas Gerais; e, no sábado, pregação no Evangelho de João. Aqui temos um bom modelo de pregação numa congregação, onde estilos literários bíblicos diferentes são bem combinados na pregação, e unidos com aulas catequéticas. Por isso, podia se afirmar de Lutero que ele pregava ensinando e ensinava pregando. Em nosso tempo, D. M. Lloyd-Jones pregou dez anos na epístola aos Romanos, e seis anos na epístola aos Efésios – e sua igreja ficava lotada!

Lutero, Lloyd-Jones e outros que têm seguido esse método de pregação buscam enfatizar “todo o desígnio de Deus” (At 20.27), pregando toda a Escritura para o povo de Deus. Em outras palavras, o ministro cristão será um “pastor ensinador” (cf. Ef 4.11).

No tempo da Reforma, tal modelo de pregação foi um claro ataque contra os métodos de ensino católicos. Estes usavam a dramatização, que era chamada de dramatização dos mistérios, quando atores profissionais eram pagos para, junto ao altar, representar diante do povo, que eles consideravam inculto e incapaz, as verdades das Escrituras, muitas vezes romanceadas. Mas, segundo a Segunda Confissão Helvética,“a pregação da Palavra de Deus é a Palavra de Deus”:

Portanto, quando esta Palavra de Deus é agora anunciada na Igreja por pregadores legitimamente chamados, cremos que a própria Palavra de Deus é anunciada e recebida pelos fiéis; e que nenhuma outra Palavra de Deus pode ser inventada, ou esperada do céu: e que a própria Palavra anunciada é que deve ser levada em conta e não o ministro que a anuncia, pois, mesmo que este seja mau e pecador, contudo a Palavra de Deus permanece boa e verdadeira.

Então, por causa do elevado conceito que as Escrituras tem de si mesmo (1Tm 3.16; 2Pe 1.19-21), por entender que a exposição da Palavra é o meio de salvação (Rm 10.13-17; 1Pe 1.23), e que o homem, por ter a imagem de Deus, é um ser com capacidades racionais, nossos pais espirituais rejeitaram esses acréscimos. O único sacramento que eles aceitaram era a pregação da Palavra de Deus.

Além disso, a pregação bíblica não pode ficar de fora dos cultos, pois é parte integrante da adoração. Portanto, precisamos voltar a ensinar toda a Palavra, não apenas aquilo de que gostamos mais ou que nos é mais familiar, mas toda a Palavra de Deus. Quando o fiel ensino e a pregação da Palavra são negligenciados, sempre surgirão superstições e crendices dentro da própria igreja evangélica.

Os ministros da Palavra devem ser pregadores práticos, lidando com os casos de consciência. Assim sendo, eles devem aplicar a Escritura àqueles que ainda estão em seus pecados, aos que estão lutando com alguma doença ou passando pela“noite escura da alma” e aos que estão crescendo na fé.

Toda essa questão se torna ainda mais urgente quando vemos que, em pesquisa realizada em 2010, cerca de 51% dos pastores e líderes evangélicos brasileiros nunca leram a Escritura por inteira pelo menos uma vez, o que explica o declínio da qualidade dos ministros em nosso país e a grande quantidade de ensinos que estão em ruptura com a fé cristã histórica.

Precisamosser igrejas bíblicas, criativas e relevantes. Ao definirmos “igreja”, pode-se lembrar de que, em termos confessionais, duas marcas caracterizam a verdadeira igreja: a Palavra de Deus pregada e ouvida em toda a sua pureza e a correta administração dos sacramentos do batismo e da ceia do Senhor. Como declara a Confissão de Augsburgo:
Ensina-se também que sempre haverá e permanecerá uma única santa igreja cristã, que é a congregação de todos os crentes, entre os quais o evangelho é pregado puramente e os santos sacramentos são administrados de acordo com o evangelho. Porque para a verdadeira unidade da igreja cristã é suficiente que o evangelho seja pregado unanimemente de acordo com a reta compreensão dele e os sacramentos sejam administrados em conformidade com a palavra de Deus. E para a verdadeira unidade da igreja cristã não é necessário que em toda a parte se observem cerimônias uniformes instituídas pelos homens. É como diz Paulo em Efésios 4: ‘Há somente um corpo e um Espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo’.

O Novo Testamento oferece limites para sermos igreja, mas dentro desses há bastante liberdade para adaptações às mudanças que aparecem em diferentes lugares e épocas.

Partindo desse ponto, precisamos reafirmar, de forma criativa, a vida em comunidade. Para isso, devem ser encorajados meios para incluir os vários dons espirituais dos cristãos no ministério de nossas igrejas, lembrando que cada crente é importante e tem um ministério necessário no corpo de Cristo (Rm 12.4-8; 1Co 12.8-11,28-30; Ef 4.11-16; 1Pe 4.8-11).

Ao mesmo tempo, todos os membros deveriam estar conscientes de suas responsabilidades de mútua submissão e autodoação na igreja em que participam (Ef 5.18-21). A igreja existe para nutrir relações de cuidado entre seus membros (1Co 13.1-13). Como bem lembra Horrell, é preciso cultivar amizades profundas, para imitar a igreja do Novo Testamento. “Cultos nos lares, núcleos de estudos bíblicos, retiros e outras formas de comunhão contribuem para reunir em amor o povo de Deus, exaltando a alegria e o amor da Trindade, antecipando a comunhão abençoada do céu”.

O ensino bíblico sobre a aliança precisa ser redescoberto. Em termos bíblicos, um pacto ou aliança é um vínculo de sangue graciosa e soberanamente administrado, na medida em que “sem derramamento de sangue, não há remissão” (Hb 9.22). Portanto, as Escrituras registram a promessa do mediador pactual, o Senhor Jesus Cristo, no Antigo Testamento, e o cumprimento de tal juramento, no Novo Testamento. Essa doutrina funciona como o tema unificador das Escrituras Sagradas.

Em termos práticos, a aliança é o vínculo dos crentes na comunidade da fé. Se, de um lado, pecadores são chamados soberana e graciosamente por Deus para a salvação, estas novas criaturas (2Co 5.17), agora renovadas pelo Espirito Santo, são incluídas numa comunidade que está ligada por um vínculo pactual gracioso e soberano com o próprio Deus, por meio de Jesus Cristo, e entre si mesma. Portanto, é preciso lembrar a esta comunidade da aliança que o Senhor tem prazer em cumprir suas promessas pactuais, assim como exige obediência às exigências pactuais estabelecidas por ele mesmo.

O preço do discipulado e a disciplina precisam ser enfatizados, pois o que tem prevalecido na cultura da malandragem e do jeitinho é aquilo que Dietrich Bonhoeffer chamou de “graça barata”. Portanto, precisamos recuperar o ensino da graça custosa, que exige tudo daqueles que ouvem o chamado evangélico para seguir o Senhor Jesus Cristo:

A graça barata é a pregação do perdão sem arrependimento, é o batismo sem a disciplina de uma congregação, é a Ceia do Senhor sem confissão de pecados, é a absolvição sem confissão pessoal. A graça barata é a graça sem discipulado, a graça sem a cruz, a graça sem Jesus Cristo vivo, encarnado.

A graça preciosa é o tesouro oculto no campo, por amor do qual o homem sai e vende com alegria tudo quanto tem: a pérola preciosa, para adquirir a qual o comerciante se desfaz de todos os seus bens; o governo régio de Cristo, por amor do qual o homem arranca o olho que o escandaliza; o chamado de Jesus Cristo, ao ouvir do qual o discípulo larga as suas redes e o segue.

A graça preciosa é o evangelho que há de se procurar sempre de novo, o dom pelo qual se tem que orar, a porta à qual se tem que bater. Essa graça é preciosa porque chama ao discipulado, e é graça por chamar ao discipulado de Jesus Cristo; é preciosa por custar a vida ao homem, e é graça por, assim, lhe dar a vida; é preciosa ao condenar o pecado, e é graça por justificar o pecador. Essa graça é sobretudo preciosa por tê-lo sido para Deus, por ter custado a Deus a vida de seu Filho – ‘fostes comprados por preço’ – e porque não pode ser barato para nós aquilo que para Deus custou caro. A graça é graça sobretudo por Deus não ter achado que seu Filho fosse preço demasiado caro a pagar pela nossa vida, antes o deu por nós. A graça preciosa é a encarnação de Deus.

A graça preciosa é a graça considerada santuário de Deus, que tem que ser preservado do mundo, não lançado aos cães; e é graça como palavra viva, a Palavra de Deus que ele próprio pronuncia de acordo com o seu beneplácito. Chega até nós como gracioso chamado ao discipulado de Jesus; vem como palavra de perdão ao espírito angustiado e ao coração esmagado. A graça é preciosa por obrigar o indivíduo a sujeitar-se ao jugo do discipulado de Jesus Cristo. As palavras de Jesus: ‘O meu jugo é suave e o meu fardo é leve’  são expressões da graça.

Durante quase dois mil anos, os Salmos foram centrais para a devoção da igreja cristã, ensinando os fiéis a orar, em resposta ao Deus que se revela, uma confissão e glorificação ao Deus trino, criador, redentor e restaurador. Na igreja primitiva e durante a reforma protestante, quando um pastor queria ensinar sua congregação sobre a oração, pregava nos Salmos. Portanto, as igrejas e comunidades cristãs devem redescobrir o saltério como o livro de oração dos crentes, a escola onde se aprende a orar, sempre de novo. E esta oração pode e deve ser aprendida por meio da leitura orante dos salmos em comunidade.

As Escrituras, dessa forma, não são apenas a perfeita revelação de Deus, mas guia do cristão em suas lutas e vitórias – não apenas atos históricos passados e distantes, mas eventos vivos, aqui e agora.

Precisamos também recuperar o rico conceito bíblico de sacerdócio de todos os crentes (1Pe 2.5,9; Ap 1.6; 5.10; 20.6). Segundo Lutero, todo cristão é sacerdote de alguém, e somos todos sacerdotes uns dos outros. Esse sacerdócio deriva diretamente de Cristo, pois “somos sacerdotes como ele é sacerdote”. É uma responsabilidade tanto quanto um privilégio: “O fato de que somos todos sacerdotes significa que cada um de nós, cristãos, pode ir perante Deus e interceder pelo outro. Se eu notar que você não tem fé ou tem uma fé fraca, posso pedir a Deus que lhe dê uma fé sólida”. Portanto, não podemos ser cristãos sozinhos, precisamos da “comunhão dos santos”: uma comunidade de intercessores, um sacerdócio de amigos que se ajudam, uma família em que as cargas são compartilhadas e suportadas mutuamente. Nem todos podem ser pastores, mestres ou conselheiros. Há um só estado – todos os cristãos são sacerdotes –, mas uma variedade de funções – cada cristão tem um chamado específico da parte de Deus, para glorificá-lo no mundo.

Em todas essas coisas, somos ensinados que Deus Pai, em Jesus Cristo, por meio do Espírito Santo, nos chama como indivíduos para vivermos em comunidade.

Num tempo de mudanças tão profundas e desafiadoras, temos diante de nós uma grande tarefa: a de, na dependência do Espírito, orar, pregar e ensinar, de tal forma que vejamos em nosso tempo uma igreja pura, ortodoxa, santa e relevante para a sociedade. O Livro de orações comum expôs toda nossa responsabilidade e toda a nossa esperança na tarefa de proclamarmos com força renovada a fé evangélica:

Todo poderoso e eterno Deus, que pelo Espírito Santo presidiste o concílio dos abençoados apóstolos, e tem prometido, por teu Filho Jesus Cristo, estar com tua Igreja até o fim do mundo; (...) Livra-nos do erro, da ignorância, do orgulho e da parcialidade; e confiados em tua grande misericórdia, te imploramos, dirige, santifique e governe em nosso trabalho, pelo grande poder do Espírito Santo, a fim de que o confortante evangelho de Cristo seja verdadeiramente pregado, verdadeiramente recebido e verdadeiramente seguido em todos os lugares, para a derrota do reino do pecado de Satanás e da morte; até que ao fim todas as tuas ovelhas dispersas, sejam reunidas em um só rebanho, e se tornem participantes da vida eterna; pelos méritos e morte de Jesus Cristo, nosso salvador. Amém.



Obras consultadas e sugeridas para aprofundamento do assunto:

Beeke, Joel;  Ferguson, Sinclair. Harmonia das confissões reformadas. São Paulo: Cultura Cristã, 2006.

Bonhoeffer, Dietrich. Discipulado. São Leopoldo: Sinodal, 2001.

Ferreira, Franklin; Myatt, Alan. Teologia sistemática. São Paulo: Vida Nova, 2007.

Curso Vida Nova de teologia básica: teologia sistemática. São Paulo: Vida Nova, 2013.

O uso dos Salmos na devoção cristã. Revista Teologia Brasileira 10 (2012). http://www.teologiabrasileira.com.br/teologiadet.asp?codigo=294.

Horrell, J. Scott. O Deus Trino que se dá, a imago Dei e a natureza da igreja local. VoxScripturae, 6/2, dez./1996, p. 243-262.

Comissão Permanente de Doutrina da IPB. A Igreja Universal do Reino de Deus: sua teologia e sua prática. São Paulo: Cultura Cristã, 1997.

Livro de Oração Comum: forma abreviada e atualizada com Salmos litúrgicos. Porto Alegre: Igreja Episcopal do Brasil, 1999.

Lopes, Augustus Nicodemus. Sobre liberais, parasitas e neoliberais. O Tempora! O Mores! http://tempora-mores.blogspot.com.br/2006/01/sobre-liberais-parasitas-e-neoliberais.html.

Machen, J. Gresham. Cristianismo e liberalismo. São Paulo: Shedd, 2012. Robertson, O. Palmer. O Cristo dos pactos. São Paulo: Cultura Cristã, 2011. Schaeffer, Francis. A igreja no século 21. São Paulo: Cultura Cristã, 2010. Trueman, Carl R. O imperativo confessional. Brasília (DF): Monergismo, 2012.

Wright, R. K. McGregor. A soberania banida: redenção para a cultura pós-moderna. São Paulo: Cultura Cristã, 1998.

Fonte: Excerto do Livro Servos de Deus, Franklin Ferreira (Conclusão).

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